domingo, 30 de janeiro de 2011

quinta-feira, 22 de julho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Escrevo aqui e agora, sem os rascunhos em folhas de papel que costumo fazer, porque hoje já não é mais mês de Maio, é final de Junho e, eu ainda tenho entalado na garganta muito. Muito de tudo, muito de mim, muito de ti, muito de nada que, como planta ácida carnívora: me corroí, me devora, me destrói aos poucos, até o meu avesso chega a sentir, mesmo diante do entorpecente. Muito da alegria, cordas vocais roucas de tanto  berrar canções quaisquer, muito de amizade, ainda sim, continuo efervescendo, corroída. Embora não seja dessa vez que me consumo por inteiro, virar cinzas e voar ao sabor do vento. Eu não me permito. Nessa carnificina, posso sair inteira, embora maçada, sem voz e uma consciência desnorteada pelas palavras gritadas aos ventos, aos avessos, aos passados, aos fantasmas dos meus presentes imaginários e alucinações dos sentimentos criados por serem mais intensos. Eu só queria não ter que olhar no espelho todo o dia, então dar de cara com toda a mesquinharia, sabotagens instantâneas, sorrisos amarelos e disfarces de quem, faz muitos tempos, se perdeu no meio do caminho do avesso que não é mais o seu, nem bate no próprio céu. De me pegar engolindo qualquer coisa rápida, sem mastigar, ir dormir pedindo um sono sem sonhos, tendo medo do ridículo, contentando com o óbvio e coisas iguais. Não posso. Nem quero, mas isso, acredite, foi mais instintivo do que qualquer coisa, como nadar no mar - sem cuidado, num acidente de azar ou na revolta dele: as ondas tragam-te para dentro da ressaca, o olho fica cheio de maresia, enquanto o sal resseca o resto, tudo menos os olhos cheios de maresia, neblina densa, aparentemente, ela predestina um temporal de qualquer cor ou nome, arrasador, fodido e, eu continuava me afogando em água e maresia. Tudo isso até passar o temporal. Então, veio o mar remexido, cor de chocolate quente e o céu de brigadeiro, me dei conta: nesse mar revoltoso, tudo era contrário. Chocolate e brigadeiro, para mim, sempre foram doces. Eles viram azedos na  língua. E eu queria mar e céu azul tolamente, afinal o boicote é fácil. descobrir esses tons terrosos de marrom, em meio aos pretos,brancos e azulados, modificaram todas as percepções de feio e belo, bom e ruim: é só ver diante de qualquer espelho ou água fria que me permitisse sentir minhas duas pernas, meus olhos, meus braços, meu cérebro intacto e todos os meus dedos, minha vida sete palmos acima e não abaixo da terra. Permito-me nadar contra a maré, jamais ser puxada para dentro e lá ficar, afogada no fundo do mar particular. Dos resultados disso: um respirar forte, ofegante, barulhento. Intenso.
Que minha própria planta carnívora dê fim a esse resto, com tudo mais que eu não quero. Mas que deixe esse amargo guardado na intensidade com que nado contra essa maré própria, porque não posso, nem por muito nem pouco, esquecer disso: desses olhos cheios de maresia, apatias de azul autosabótico corroído, que não é mais Maio, é final de Junho, dia 28, é hoje, posso não ser mais inteira nem se me verem pelos lados contrários, contudo sou tom de terra - sempre -  em meio ao mar, qualquer mar. Até mesmo o meu mar. E nesse oceano, eu não me permito mais afundar.

domingo, 20 de junho de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

Prefácio

- Para Maíra 

Não foi Capitu, Kiefer, Caio, Clarice ou Diadorim, muito menos Eva. é o que é, ou fora, o  que viria a ser, aquilo que queria. Mas, como qualquer mortal de sangue quente, trazia de arrasto e vontades próprias: os sete pecados, seus gênesis, êxodos e apocalipses, sem contar a mordida de maçã que não lhe fora nem fantasia, viera de herança. Tudo isso em seu marco zero, por toda a vida, não impediram que seguisse, pelo dilúvio, chuvisco ou deserto, tanto fazia, pois enquanto os dados ainda rolarem, não há derrotado.
Se fosse fácil,a intensidade estaria perdida. A realidade crua e nua exige isso e não só o perfeito – na escuridão todos os gatos são pardos – cedo ou tarde, as máscaras fazem barulho, quando caem. Simples é mostrar todos os dentes como um sorriso torto, afinal  basta concentrar os músculos da face. O difícil são olhos, não a serpente. A antiga casca oca se partiu tantas vezes, deixando cacos pelo caminho. Eles cortaram (contudo  foram sendo levados, aos poucos, pelas lágrimas, derrotas amargas, pelos amores, pelos pés, pelo luto dos que partiram e continuaram em vida e pelos que se foram de vez)  deixando marcas, vistas todos os dias perante um espelho qualquer, mas só para ela. Porque demonstrar fraqueza é demais, já que os dados rolam. Esqueça a maçã, esta também se perdeu, seu peso é leve, diante de tudo que veio, tudo que vai.
Enquanto o vento bate no rosto, esvoaçando seus cabelos negros, a maquiagem dela cobre as olheiras, um sorriso de escárnio macula o rosto sereno, uma trilha sonora  imaginária cria-se, enquanto recita um trecho de um poema para si mesma: Não tirei bilhete para a vida, errei a porta do sentimento, não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. Hoje não me resta, em vésperas de viagem, com a mala aberta esperando a arrumação adiada, sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) senão saber isto: Grandes são os desertos, e tudo é deserto”, continua nua, crua, verdadeira em um mistério íntimo, no meio do contraste. Ela, Maíra: Muito mais do que aparenta e um dia pensou em ser.

  

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Estava fugindo. Confesso. Mas, ainda que tenha tempo sobrando e eu não culpe a falta de  'inspiração',  não  conseguia  fazer  algo do meu agrado, é assim, ao menos comigo, em quase todos os jeitos : desenho, trabalho, limpeza, aparência, prosas, etc. Neurótica, sim, é isso que sou. Isso reflete, refrata, metamorfiza, dramatiza e, obviamente, poetiza-me um pouco.
Desabafos a parte, estou sem chimarrão. A erva tristemente acabou em um final de tarde frio,  porém tenho uma garrafinha de água, um pedaço de maçã mordida. Ao menos um desenho teve seu fim (acima) e terminei de ler a Menina que não sabia Ler, de John Harding. Ótimo até a página 150, depois foi decaindo, por fim, acabando em um final cuja surpresa poderia ter sido maior. A menina transita entre o real e imaginário, loucura e sanidade, amor e obssessão, mas deixou a desejar, transformando um grande possível final em uma bobice razoável. Não era fantasma, era loucura mesmo, algo a la  Macbeth e, ela foi de irmã protetora a psicopata capaz de tudo - o autor pouco explorando essa transformação, a fim de manter o clima de suspense, algo como um filme de terror de seção da tarde.Mesmo assim: recomendo. Bom, esse fim de semana minha cunhada trará-me a saga do Crepúsculo. O que me aguarda? Estou louca  mesmo é para ler o novo livro da Isabel Allende: La isla bajo el mar, sem tradução ainda, que conta a história de Zarité, uma mulata que aos 9 anos foi vendida como escrava para o francês Vamorain, dono de uma das mais importantes plantações de açúcar da ilha de Santo Domingo. O romance conta 40 anos da vida de Zarité e mostra o que representou a exploração de escravos na ilha no século 18, suas condições de vida e como foi a luta pela liberdade.
Alice  estreiou, estou louca varida para ver em 3D, apesar das péssimas críticas lidas por mim, durante a semana, no entanto, será provavelmente fantástico e colorido (como eu gosto - a princípio). Até lá, nada digo.

- (texto sem título) - 

Desceu do carro antigo, as grandes avenidas (paralelas) eram atravessadas por outras menores, formando espaços para um pouco de tudo, deixando um aspecto de Jogo da Velha vivo sem "xizes", nem "bolinhas". Numa esquina, perto da parada que a levaria para casa, havia uma padaria simpática. O dia era claro e quente, porém, na manhã de outono, usava jaqueta e um lenço amarrado no pescoço, afinal a noite virada e o café com leite tomado as pressas às 7h da manhã, não foram o suficiente para tirar os incomodos do corpo, contudo  que sabia ter esquecido de como era possuir incomodos onde a carne não chega, só sofre consequências dos sentires inesplicáveis, imagináveis para quem não os sabe. Nem tudo podia ser como queria, mas, ao menos, que fosse bom, com um toque adocicado, até aí as revelações eram nulas . Então resolveu pedir um sonho, antes, como qualquer pessoa que tem o dinheiro contado, perguntou quanto era. Por R$:1,40 podia comer um sonho de mumu ou de creme.  Escolheu ambos (o de creme levaria para casa, comeria-o depois, na calamaria, quem sabe transformario-o em um agrado a quem entendesse).
Por fim, o sonho virou pesadelo. Era quase oco, uma massa doce, sem recheio algum. Todas esperanças depositadas, ruíram na primeira mordida, quando não se viu só cara, mas, sim, coração. Importou-se apenas no início, depois o envolveu em papel de padaria. Decidiria depois o destino do sonho oco. No relógio da parede: 8h. Os olhos piscavam devagar. A distância até a parada: um atravessar correndo de rua. Foi-se, respirou os ares poluídos de uma Segunda - Feira que nada prometia, foi sugada até o último, por risadas, mentolados não tragados, socializações não forçadas (claramente bem sucedidas), sendo chamada de louca, por uma minoria de um, era apenas a sua neurose. Inspirou, expirou, sentindo-se viva. Aproveitando um sinal vermelho, sem deixar de reparar as luzes verdes, as quais agora via, quando encostada num poste, via a cidade acordar, outros saírem para labutar, rodar alguma bolsa, passear. Ela, simplesmente, iria para casa. 
Na parada, o fluxo trazia todos os tipos de ônibus (de ida, quanto de volta) e pessoas. Viu as diferenças costumeiras entre um ser e outro, comprovando através do chão o quanto a "porquice" era grande e o número de fumantes também, por consequência: as espumas flutuantes de fumaça. Coisas que só ela dava bola, mas retornos e percepções de forma igual são meras ilusões. A diferença a colocaria em uma posição favorável ou não, assim como as questões dos incomodos corporais, só que essa jamais haveria de passar, ao contrário: agravaria-se, pois jamais conseguria viver só e achar alguém igual seria aceitar a derrota de que não entendia a verdade: nunca seria completa na igualdade e que criar outro contexto oco perfeito não a satisfaria por muito tempo, logo a cansaria.
O letreiro brilhante não mentia. Um aceno de dedos, logo depois arrumou o lenço. Sonolenta, derretendo, porque o calor começava a derrete-la. Salva no acento estofado forrado com courino, ouvia "Come Together" e qualquer música  mentalmente, como sempre fazia, ajudava a passar o tempo, enquanto as nuvens corriam depressa pelos quilometros da locomotiva de rodas. Quando chegou ao seu destino, elas tomaram sua velocidade normal, devagares, tal qual seus passos.

Tinha pressa, portanto ia desviando de tudo, já sabia o caminho de olhos fechados. Sabia? Não. Naquele dia, isso não foi o bastante. Caiu. Sujando as calças de terra seca, ralando as mãos. Sentou na terra, envergonhada até o pescoço pelo tombo. Um qualquer de bicicleta diminuiu sua velocidade e, na melhor das hipóteses, foi uma alma boa que desejava ver se ela precisava de ajuda. Levantou-se rápido, ao vislumbrar a bondade aparente do ciclista. Levantaria-se com suas próprias pernas e mãos cortadas, sem outros incômodos invisíveis ao corpo. - pensou. Nada mais do que outra sina dos orgulhosos.
Quase correu até chegar ao seu portão. Entrou. Afagou seus cachorros. Disse bom dia. Beliscou uma banana. Deu de agrado os sonhos e sorrisos. Confessou algumas aventuras de um tombo lindo. Sentiu-se viva, completa na autossuficiência. Tinha tudo que precisava ali, menos creme para sonhos. E, no seu cansaço atrofiado, sentou na beira de um degrau de porta, olhando o céu do chão (jamais cairia), sem fome, machucada superficialmente, em uma posição favorável, trazida por conhecimentos incompletos de uns rumos quase certos ou óbvios.  Por enquanto, a única coisa que podia dizer: precisava ser livre.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Um só pneu

Alguma substância, que me fazia ficar de olhos abertos, por alguns segundos teve seu efeito questionado, na noite fria de nuvens sujas, provavelmente em alguma Terça - Feira do mês de Agosto. Eu observava dentro do carro, prestando atenção nas luzes tangerina dos postes, enquanto bocejava e jogava no vidro embasado Jogo da Velha, deixando de ser invicta pelas mãos do meu maior adversário. Passei o dedo indicador, disposta a apagar tudo, tornando visível o lugar por onde eu passava.
Naquela Avenida onde só o invisível caminha e, o carro trafega, eu enxerguei, com direito a luz do poste em foco, um homem escorado em uma roda de bicicleta. Não. Não era um quadro de Duchamp humanizado. Ele olhava o nada, na maior das imaginações, quem sabe, algumas sombras dançantes. Não. Não era Dom Quixote vendo moinhos de ventos sombrios. Não. Não era a morte, nem a vida esperando-me na linha reta do asfalto, anjo ou demônio. Era homem e, esse fato, perturbou-me.
Um arrepio passou pela espinha, coluna dorsal, lombar, vértebras, carnes e nervos (tudo junto ao mesmo tempo), ele arregalou meus olhos (contraindo as pupilas) , logo desaparecendo, assim como o moço do pneu. Alguns minutos. Suspiro, lacrimejo e, pelos fins inevitáveis, começo a descer o poço, com paredes limadas, das possibilidades . Comento como a noite está fria, nenhuma alma viva em qualquer lugar (o de sempre). Preencho com saliva e palavras aquele recinto andante onde o silêncio agonia-me, até por os pés na laje da minha casa, indo cada vez mais fundo no poço das pedras limadas. Ia abrindo portas, ultrapassando corredores, dedos nas paredes pasteis, até o ver o semblante dela.
- Mãe! Vi a situação mais bizarra da minha vida, um homem, no meio do nada, escorado num pneu de bicicleta. Do nada, sem motivo algum. Acho que ele estava esperando algum ônibus, porque “trabalho” não era, não vi vela, galinha... Nem estava drogado, tenho certeza, sem fumaça, cutucos incandescentes, nada! Só o pneu.
- Inusitado, quase absurdo. Como ele era?
- Não sei. Não reparei.
- Vai ver vai fazer um monociclo.
- Quê?
- Aquele negócio de circo.
- Para se apresentar no El Grande Circo Español?
- Nein! No Solei. – e a gargalhada atravessou a sua garganta.
A conversa encerrou-se, nem começou na realidade; tornando-se uma cena de ficção em algum lugar perdido do cérebro. A verdade: fiquei estático, demonstrando cansaço, a cara de vilão canalha de olhos caídos, que me atribuíam. Joguei a bolsa aos pés, casacos, cachecol para dar espaço a toalha de banho no corpo. Foi rápido e insuficiente, pois minhas formas não me distraíram e, só por algum tempo, a água quente preencheu o espaço. Foi-se embora no, com o sentido horário do fechar da torneira, deixando o vapor e toalhas macias (cujo poder de absorção tragou as últimas gotas). Olhei o espelho, passei as mãos por ele, desembaçando-o. Mostrei minha arcada dentária - conferindo se todos os dentes estavam lá – alisei meus cabelos e arranquei alguns (sinais de que estava ansioso). Então, por um estralo, impulso elétrico de quem se lembra de algo importante adormecido pelo tempo, sai caminhando a passos rápidos ( a fim de não dar na vista a necessidade – diferente, mas parecida e sem abstinência de quem se entorpece com químicos orgânicos) compulsiva. Até olhar os quatro cantos da garagem e focar, num canto esquecido, a velha bicicleta cor-de-cáqui invadida pelas teias de aranha (carinhosas moradas ou túmulos de artrópodes). Tudo no seu lugar, pensei. A borracha gasta, os pneus, os aros enferrujafos e o banco de espuma dura comido pelas traças, todo esse conjunto já me foi útil. Todo o conjunto, porém não só o pneu, o qual sozinho não parecia ter serventia.
Sonolento ou desiludido fui ao quarto deitar a cabeça em travesseiro baixo, vislumbrei porta-retratos nos corredores. Eles mostravam uma criança esperançosa, ainda comedora de terra e sonhadora ganhando seu primeiro mundo – o quintal – com seu mais novo brinquedo: a bicicleta, lembraram os tempos simples onde aquilo lhe bastava. Encontrei minha direção ao encontrar o lugar que me propus chegar: o quarto, quase um santuário, contudo, ao invés de deitar a cabeça no travesseiro, atire-me como um peso morto. Fiquei lá: morto, se não fosse pela respiração decrescente, olhos fechados povoados de sonhos.
“Eu Vestia amarelo e laranja fluorescentes, uma bermudinha de estampa psicodélica. Isso seria o cúmulo do cafona ridículo, YSL reviraria-se no túmulo, se não tivesse novamente cinco anos de idade, um quintal esmeralda de 4x4 (grande mundo novo, na época) e tivesse como companhia uma bicicleta cor-de-cáqui. Um dia ensolarado, em uma primavera há muito tempo perdida, só agora revivida, em mais uma cena de ventania. Caçava borboletas em um laço de descompasso, até a hora na qual isso me cansou, então peguei meu novo veículo sai no 4x4 a fora, mais um Napoleão. Até cair, como todos os grandes imperadores, num descuido de atenção. Acabei entortando o pneu, perdendo outro no choque contra o muro e chorando por ver minhas possibilidades de aventura destruídas. De consolo nada: os tijolos que sobraram deixavam visíveis as folhas secas da árvore da vizinha, já idosa e não um deleite para o olhos, muito menos uma possível rota de fuga. Até que ele veio, aquele homem, visto à poucas horas antes, vestia preto (calças, cuecas, suspensórios... tudo negro), a cara era branca de lábios vermelhos, sorriu um sorriso de animal traiçoeiro – capaz de muito, enquanto zanzava pelos ares com seu monociclo. Invejei-o, mais um pecado nos ombros, desejei apedrejá-lo, até peguei algumas britas. Porém só o espantei com gritos, mostrando meu sorriso desdentado – de animal louco. Mandei-o embora. Observando-o partir, ri a toa. Desde sempre fui homem-animal: mostrando os dentes na defensiva, ofensiva, ostentação e vitória, escondendo-os na tristeza (fazendo os olhos vazarem), decepção, tombos de egocentrismo que fazem a cara bater no chão, compartilhando-os em trocas de carinho, trocando-os por recompensas”.
Acordei, às 3h, com as imagens ainda em minhas retinas, meus dedos segurando pedrinhas imaginárias. Passei a língua entre os dentes, busquei no criado mudo uma garrafa de água. Bebi, saciei-me e liguei para Denise. Alguns toques depois, sua voz sonolenta manifestou-se, parecendo metálica e automática.
- Oi, algo urgente? Outra noite de insônia? - perguntou.
- Não, nada disso. Dormi, até mesmo sonhei, mas...
- Tu andas tomando a medicação?
- Odeio tomar aquelas porcarias.
- Pelo jeito vou te ver amanhã.
- Talvez.
- Inspira e expira.
- Não, Denise. É sério!
- Como das outras vezes? Foi só um pesadelo.
- Não, não! – gritei.
- Das duas uma: ou tu estás surtando ou drogado.
- Já te disse, parei com a maconha faz seis meses.
- E o ácido?
- Nunca usei. Tu devia saber.
- Toma o remédio que eu te receitei, ok? Ouve uma música que tu goste, nada de coisas mundanas, te desliga do mundo.
- Meu pai te paga para tu me escutar, sabia?
- Mas tu precisas te ajudar, quem faz o verdadeiro trabalho de equilíbrio emocional és tu.
- Amanhã, ás 15h, eu vou à consulta.
- Qualquer coisa liga-me.
- Tchau.
Desliguei o telefone antes que ela tivesse tempo para uma resposta. Esperava mais dela, contudo só me servia como entulho (de pensamentos e outras coisas que eu não controlava) nas horas de expediente. Uma grande – e cara – medíocre. Disquei outro número.
- Oi!
- Outra noite dormida em pântanos? – perguntou.
- É, naqueles onde o sol nunca acorda nem dorme, muito menos brilha.
Eu havia chegado no fundo do poço de pedra limada. Despejei todas as palavras sobre as cenas, as quais só eu entendia.
- Sente-se melhor?
- Não sei. Prefiro dizer menos pesado, mais feliz porque tua presença telefônica alimenta meu coração carnívoro, sedento de atenções. Posso te ver amanhã? Às 16h, na praça?
Tenho que desligar antes que o sono passe. – menti.
- Claro. Espera! Tu não tens consulta com a Denise?
- Tenho. Dá tempo. Tchau.
- Tchauzito.
Desliguei o telefone, eram quase 4 da manhã. Virei e revirei-me em vão. Horas mais tarde, após ver os primeiros raios de sol. Levantei, tomei meu banho, passei café, estilo tintura, comi uma banana e um pãozinho com mumu. Distribui bons dias, bocejos e gestos, fechado, armado para não aparentar. Dissimulado, sem olhos oblíquos, muito menos cigano, raramente ressacados, porém sempre carnívoros.
Outro dia, uma Quarta – Feira, de rotina. Eram 15h e, eu estava sentado no divã de Denise, sem sapatos, olhando a janela cuja vista deixa-me com certos anseios. Era o 12º andar, a noite com as luzes tangerina deveria ser esplendido, um céu de estrelas laranjas.
- Me fala de ontem?
- Ontem?
- É!
- Eu te liguei?
- Sim.
- Que horas?
- De madrugada.
- Tomei os remédios. É impossível, aquilo apaga até um elefante.
- Alguma coisa me diz para desconfiar.
- Por quê? Só porque eu sou diagnosticado obsessivo compulsivo não raivoso com dificuldades de me relacionar, com tendência a desenvolver esquizofrenia? Só porque eu só me relaciono com quem eu vejo certa graça! O normal maquinal não me interessa. Com tantas características de ganhador de mister simpatia, eu posso muito bem ser sonâmbulo.
- Vou confiar.
- Obrigado.
- Tenho um encontro hoje.
- Sério! Ótimo, grande progresso. E em grupo?
- Me relacionando.
- Está fumando um Black, as vezes?
- Se estivesse não te diria.
- Tu estavas indo tão bem.
- Um pouco de sinceridade demais afeta.
- E de consciência?
- Também, mas menos.
- Quando é esse teu encontro?
- Agora, as 16h.
- E a seção?
- Se eu sair, vais mandar internar-me?
- Não, muito menos se for pela janela.
- Tá certo, essa semana compensamos e, tu me constas o meu sonho! – ri.
- Certo, vou falar com teus pais.
- Pode dizer tudo isso, mais alguns ano de convivência pro nosso currículo, né?
- De fato. – sorriu – vai antes que te atrase.
- Tchau. A propósito, nem todas as flores ficam bonitas com a cor da parede e alguns cheiros inibem. Acho que flores do campo são melhores que lírios nesse caso, o vermelho deles combina com tua íris cor-de-terra.
Bati a porta, desci andares. Ganhei a rua e em cinco minutos a praça. Vislumbrei uma silhueta sentada em um banco de madeira. Senti ao lado dela, então minha rotina foi-se aos ares.
Nós sentados no banco da praça, ouvíamos os barulhos de todas as vozes, menos as nossas. Foram alguns segundos com aparência de minutos, até alguém puxar assunto.
- Adoro esse lugar – eu disse.
- Sim, é muito bonito mesmo, pena que é mal conservado.
- Geralmente as pessoas não dão muita atenção àquilo que não possui tanto glamour.
- Que horas são?
- 16h.
- Tu não devias estar na Denise?
- Tive só meia seção. Disse que não lembrava de ter ligado, alegando sonambulismo,por causa daqueles remédios.
- E ela...
- Nada, muito impessoal. Ia confiar em mim.
- Mas só meia hora?
- Aleguei que tinha compromisso.
- Simples assim?
- Exato.
- O sonho não era simples.
- Nem de longe – ri.
- Qual era o problema?
- Nenhum, porém há alguma coisa.
- Como...
- Um só pneu. Um.
- E...
- Com um é impossível andar de bicicleta.
- Não tem como saber se ele ia andar de bicicleta.
- Um não é suficiente.
- Mas para aquele homem devia ser.
- Bom, esse é o ponto. Porque ele é satisfeito com pouco.
- Questões de percepção.
- Um não faz a bicicleta andar.
- Tu estás muito afetado hoje, parece louco.
- Não sou louco.
- Antes de aceitar, primeiro se nega. Vais negar a Denise, os remédios, os sonhos, as insônias...
- Nenhuma nem outra.
- Então!
- Eu vejo diferente.
- Diferente? Ou puro egocentrismo?
- Apenas diferente, eu não quero só ver, quero sentir antes de tudo.
- Exemplifique.
- Tenho algumas condições.
- Acho perigoso negociar com estranhos, mas fala logo. Quais? – riu.
- Nada de linguagem monossilábica e uma chance, até duas.
- Aceito.
- Olha ali aquele casal. Ficam absortos em seus segredos de canto de ouvido, falando poemas repentinos, apimentando-se na briga, mas preste atenção na menina: está impaciente, parecendo sufocada. Mexe os dedos, olha o chão, não o abraça forte, contudo põe as mãos nas pernas ou no peito dele suavemente, parecendo estar afastando-o. Uma tristeza sobe por todos os nervos vendo essa cena, pois ela não sabe como dizer o necessário para o fim, tem medo, paixões apagadas, pouca coragem e muitas desculpas por não sentir mais. Engana a ela mesma, ilude quem a ama.
Mais outro – eu disse apontando uma criança avulsa - a mãe a cuida, mas distraída, conversando com outras mães. Ela e a menina são marcadas pela pobreza, até ai tudo bem, há muitos na mesma situação desgraçada. Note como a criança presta atenção no lanche das outras, tem aquela partezinha do olho esbranquiçada demais, provavelmente está anêmica, sente fome, tristeza e a injustiça de ser mais uma invisível entre milhões de famintos, mesmo assim sorri banguela, diante da oportunidade de andar de balanço.
Mais um trecho da vida doce-azedo.
- Isso faz meu coração parecer oco.
- Todos os corações são ocos.
Peguei suas mãos frias, levando-as até meu peito.
- Fecha os olhos.
Fechou-os.
- As cavidades são preenchidas com sangue, é um pulsar não constante, contudo ritmado, só cessa quando se morre. Ele bate.
Levei minhas mãos até seu rosto.
- A diferença: no nosso automático os olhos veem e só. Mas, não só os olhos que veem e sentem, todo o resto também. Se tu acreditar, por cinco minutos, na minha insanidade e transforma-la em sanidade, terá todo o mundo, não só uma parte.
Abriu os olhos.
- Louco.
- Apenas acho que uma roda não faz uma bicicleta andar.
Piscava, piscava. Absorvendo tudo, como se procurasse alguma coisa.
- Isso te basta? – perguntou-me.
- Uma questão de percepção. Eu me importo, portanto reparo.
- Sim ou não?
- Sim, não...
- Entendo.
- Quanto?
- O suficiente para saber que uma roda não faz uma bicicleta andar, mas um monociclo talvez.
- Já volto.
Saí, comprei um saquinho de bala toffee, já que achei que seria propício.
- Desculpa, não tinha azedinhas, só toffee. Quer?
- Não.
- Meus cinco minutos acabaram?
- Não sei... Limpa esses dentes, todas as bala fico aí.
Sorri, deixando os caramelos enfeitarem meus dentes.
- Me dá isso!
Num rápido puxão, pegou o saquinho de minhas mãos. Levantou-se rápido, hesitando no meio do caminho de areia, decorado por brinquedos enferrujados e árvores antigas, por fim chegando ao seu objetivo: a menina a qual mencionei minutos atrás. Estendeu as balas, disse que eram um presente. Deu um beijo na face suada. Voltou, sentando-se ao meu lado.
- Impulsivo. – brinquei.
- Louco.
- O sanatório nos espera – ri.
- Vou embora.
- Não vais te perder?
- Tem ônibus para o hospício na parada. – escarnou.
- Por hoje acho melhor ir para casa.
- Também.
- Vê se dorme bem.
- E se eu sonhar com o pneu?
- Duvido.
- Pois?
- O mistério te basta.
- ãhn?
- Não importa o que ele faça, desde que faça e lhe seja suficiente. Cada um tem o direito de viver a sua própria insanidade.
- Alguma diferença?
- O neutro inexiste. Quando levanto as mãos ao céu, tento pegar nuvens, as quais não parecem tão distantes, quase atingíveis, são algodão. Tomam formas quaisquer. É só imaginar, sentir o possível dentro do impossível.
-Sem limites?
- Claro.
- E se um dia...
- Eu pegá-las? Levo-as para o hospício.
- Tchau.
- Até mais, me liga?
- Quando der.
O corpo sumiu na praça velha, deixando-me sozinho com nuvens, um casal rompido e uma criança entupida. O pôr-do-sol arroxeado deixava em evidência o esvair do dia. Naquela noite, tive insônia.